segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Polícia divulga retrato falado de suspeito de matar garota em Petrolina


Beatriz Angélica Mota, 7 anos, foi assassinada durante festa em colégio.
Crime aconteceu no dia 10 de dezembro e até o momento ninguém foi preso.

Thays EstarqueDo G1 PE
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Retrato falado do suspeito de matar garota Beatriz, em Petrolina (Foto: Thays Estarque/G1)Retrato falado do suspeito de matar garota Beatriz, em Petrolina (Foto: Thays Estarque/G1)
A Polícia Civil divulgou, na manhã desta segunda-feira (22), o retrato falado do suspeito de terassassinado a golpes de faca Beatriz Angélica Mota, de 7 anos, no dia 10 de dezembro. O perfil do suspeito foi construído com base em depoimentos de três testemunhas, sendo uma delas a própria mãe, Lúcia Mota. O crime ocorreu durante uma solenidade de formatura do Colégio Nossa Senhora Maria Auxiliadora, no Centro de Petrolina, no Sertão de Pernambuco.
Ao todo, 80 pessoas já foram ouvidas pela polícia. O homem estaria próximo do local do crime e ainda teria sido visto em atitude suspeita dentro de um banheiro feminino do colégio. "Uma testemunha viu ele dentro do banheiro feminino, outra viu ele sentado por muito tempo próximo ao bebedouro - só para reforçar que o corpo da criança foi encontrado próximo a esse bebedouro. Ele também foi visto dentro do banheiro masculino lavando o cabelo, lavando o rosto. Uma testemunha também o viu saindo do local onde o corpo da menina foi encontrado", explicou o delegado responsável pelo caso, Marceone Jacinto.
A mãe foi a primeira pessoa a ver o retrato falado, mas não reconheceu o suspeito como alguém do convívio familiar ou alguém que tenha visto durante a festa. Com, aproximadamente, 2,5 mil pessoas presentes no evento, um dos fatores que dificulta a investigação é o fato da grande circulação de convidados no dia. A polícia está trabalhando em cima de imagens de celulares e do fotógrafo que estava filmando a festa, pois a instituição de ensino não apresentava camêras de monitoramento distribuídas no local onde a garota foi achada.
Por ser um caso de grande complexidade, como mesmo mencionou Jacinto, nenhuma linha de investigação foi descartada, nem o envolvimento de outros suspeitos. "Esse é um suspeito que, certamente dentro do que já temos na investigação, foi o executou ou teve alguma participação indireta no caso", completa o delegado.
Com a divulgaçação do retrato falado, a corporação acredita que chegará ao suspeito com a ajuda da populção através do Disque Denúncia, pelo telefone 3421.9595. Para o chefe da Polícia Civil no estado, delegado Antônio Barros, o caso é prioridade máxima da corporação. "Todo o esforço está sendo direcionado para esse caso. Ele é considerado o caso número um da Polícia Civil e não tenho dúvidas que vamos chegar em um resultado positivo", asseverou.
Crime
Beatriz estudava no colégio onde foi morta. Ela é filha do professor de inglês da mesma instituição, Sandro Romildo. A criança ainda estava com a mãe e a irmã no evento. A mãe conta que logo notou a ausência de Beatriz. Desesperado, o pai subiu ao palco do ginásio – onde ocorria a festa - e começou a chamar pela filha dele no microfone. Isso aconteceu duas vezes até que todos no local começassem a procurar a menina.
A criança foi encontrada em um local reservado, um depósito de material esportivo desativado, ao lado da quadra de esportes onde acontecia a formatura. Ela tinha ferimentos no tórax, membros superiores e inferiores. A arma do crime foi uma faca de cozinha. À época, a polícia descartou a possibilidade de violência sexual.
Investigações
A Polícia Militar (PM), Polícia Civil (PC), Instituto de Medicina Legal (IML) e o Instituto de Criminalística (IC) foram acionados no dia do crime. A área foi isolada e foi feita uma varredura no colégio para tentar encontrar vestígios. Dois meses após a morte de Beatriz, em visita a Juazeirro (BA), a presidente Dilma Rousseff chegou a encontrar os pais da criança. Na ocasião, os pais pediram apoio nas investigações para que a Polícia Federal possa ajudar a encontrar o autor do crime.`
A assessoria de Imprensa da Prefeitura de Juazeiro havia dito que Dilma se comprometeu a reforçar o pedido ao Ministério da Justiça, para que a Polícia Federal possar dar apoio as investigações. No entanto, até o momento, não existe nenhuma autorização do Ministério da Justiça para que a PF entre ou apoie o caso, segundo sua assessoria no Recife.
A corporação ainda esclarece que caso isso venha a acontecer, as investigações ficarão a cargo da Polícia Federal da Bahia, já que na circunscrição de área de atuação da Polícia Federal, Petrolina pertence ao estado vizinho.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Conta de água e esgoto ficará 10,69% mais cara a partir de março em PE


Agência de Regulação de Pernambuco autorizou aumento nesta sexta (19).
Decisão segue ajuste das tarifas em cima da inflação dos últimos 12 meses.

Os pernambucanos vão ter que pagar 10,69% a mais nas contas de água e esgoto a partir do dia 20 de março, quando entra em vigor o aumento autorizado pela Agência de Regulação de Pernambuco (Arpe) nesta sexta-feira (19).
O diretor de Regulação Econômico-Financeira da Arpe, Hélio Lopes, afirma que o cálculo do ajuste segue a inflação dos últimos 12 meses, com o objetivo de recompor as tarifas. Ele foi aprovado considerando um cálculo que inclui a ponderação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e Índice Geral de Preços ao Mercado (IGP-M), que incluem reajustes da energia elétrica com compensações das bandeiras tarifárias.
No ano passado, a revisão anunciada em fevereiro foi de 8,35% mas, em maio, foi necessário um acréscimo de 3,51% no ajuste que, de acordo com o diretor, aconteceu por causa do valor da conta de luz. Segundo Hélio, a situação não vai se repetir este ano e o número só vai sofrer ajuste de novo em janeiro de 2017.
"As despesas que a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) teve de energia a partir de abril do ano passado foi de 33% a mais, por causa do alto reajuste da conta de luz. Nesses 10,69% que fixamos agora já tem cobertura para a Companhia pagar seis meses de bandeira tarifária vermelha e seis meses de bandeira tarifária amarela. O aumento da energia entrou e não sai mais mas, dessa vez, não vai haver mais de um reajuste porque já estamos protegidos", afirma o diretor.
Em 2014, além do reajuste, a conta de água também sofreu a revisão tarifária. Diferente do primeiro, que é anual, a revisão só acontece a cada quatros anos.
"A diferença entre o reajuste e a revisão tarifária é que o primeiro acompanha a inflação. Já a revisão tarifária acontece é a cada quatro anos, sendo a próxima em 2018 e é nela que a gente projeta a receita necessária para cobrir os custos de trabalho".

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Eles foram colegas de classe. Um é pesquisador da USP, o outro está na cadeia. Suas vidas difíceis mostram como o país desperdiça seus talentos

FLÁVIA YURI OSHIMA
19/02/2016 - 12h38 - Atualizado 19/02/2016 13h34
Giovanni Ferreira Pinto, aos 11 anos, e Dirceu Manuel de Andrade, aos 11 anos (Foto: Rogério Casimiro (ÉPOCA))
Capítulo 1: De como dois meninos desenvolveram o dom da invisibilidade
Na antiga 1a série, a professora Heloisa, da Escola Estadual Zoroastro de Oliveira, em Campanha, interior de Minas Gerais, começava sua missão de guiar sua nova turma de crianças de 7 anosnos primeiros passos da alfabetização. Falava do A de abelha, que era o mesmo A de anão, amor, amigo… Crianças dessa idade são em geral curiosas e na maioria das vezes participativas, mas um menino destoava da classe. Quieto, parecia imerso em seu mundo particular.
Nas semanas seguintes, conforme a professora passava para o B de bola, de boi e de beleza, o comportamento do garoto começou a mudar. Seu mundo particular parecia ter colidido com o mundo de outras crianças e sua atenção se voltava para brincadeiras, risos, pequenos gritos. Foi então que a paciência da professora se esgotou. Num dia da letra B, as brincadeiras beiraram a balbúrdia, e a professora quis dar um basta, com uma baita bronca. Berrou que o menino seria um burro, que passaria fome sem nunca conseguir um emprego porque não saberia ler.
Giovanni Dias Ferreira Pinto, o menino loiro, de cabeleira farta, que causara aquela explosão, revidou a agressão: mirou o olhar para as paredes repletas de cartazes dos alunos da 4a série (atual 5o ano), que usavam a sala no outro turno, e começou a recitar o que estava escrito em cada um deles. Naquela idade, caiu a máscara com que se protegia desde os 3 anos. Quando ele demonstrou para a mãe, uma professora primária, que já conseguia ler, ouviu um conselho: não colocar o carro à frente dos bois. Querer saber mais do que lhe ensinavam era sinal de desassossego. Destacar-se era errado.
Agora, na escola, a experiência parecia dar razão à mãe. Quando a professora percebeu que seu conhecimento estava muito além do da turma… mandou-o para a diretoria. Nenhuma menção ao fato de o menino já estar alfabetizado. O foco era a bagunça. Daquela conversa, tanto Giovanni quanto seus pais se recordam apenas da vergonha que sentiram ao ouvir que ele atrapalhava o andamento de toda a sala. O pai de Giovanni, Antonio Batista Ferreira Pinto, é um artesão de arte sacra conhecido na cidade. A mãe, Angela, professora da Associação de Pais e Amigos do Excepcional (Apae). Os dois, muito católicos, frequentavam a missa toda semana e participavam ativamente das festas em datas religiosas. Não estavam acostumados a sair da linha – tampouco a levar pito por isso.
Dali em diante, Giovanni tentou se controlar, mas era, afinal de contas, um menino de 7 anos – e entediado. Pior do que a bagunça eram as perguntas que ele às vezes fazia sobre cálculos matemáticos que não faziam parte do programa do ano. A professora interpretava essas perguntas como provocações, e Giovanni acabou sendo mandado para a psicóloga da cidade. Com o consentimento da mãe, que sempre estranhara quanto seu filho era diferente, levaram o menino para a Apae.
O ano era 1985. “Foi quando virei ator e aprendi a disfarçar”, diz Giovanni, hoje com 37 anos, educador e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP). “Eu não entendia por que estava ali. O que me ajudou é que entendi como poderia sair dali.” A presença da mãe como professora da Apae ajudou. Ele a conhecia e sabia qual comportamento funcionaria com ela e, talvez, com todos: parar de fazer perguntas “descabidas” para sua idade. Como não tinha clareza sobre as perguntas permitidas por faixa etária na etiqueta dos adultos, resolveu parar com todas elas. Na dúvida, o melhor a fazer era ficar quieto e obedecer. Começava a exercitar o poder dainvisibilidade. Deu certo. Em poucos meses, Giovanni foi liberado de frequentar a Apae.
De volta à escola, Giovanni continuou a lidar com a questão de um conteúdo aquém de sua capacidade. Mas percebeu que podia aprender na biblioteca, sozinho, depois das aulas. Frequentava tanto o prédio que logo descobriu um jeito de passar da ala infantil às alas regulares. Aos 7 anos, devorava os livros de eletrônica. Como não podia levar nenhum deles para casa, passava horas na biblioteca. “Lá, dava vazão a toda a minha curiosidade”, diz. “Isso me ajudou a me tornar o aluno que a escola, a minha mãe e a psicóloga queriam:comportado e invisível.
A biblioteca municipal de Campanha.Giovanni e Dirceu iam para lá para estudar em segredo (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
Cada vez mais isolado e absorto em seu mundo privado, Giovanni foi surpreendido aos 11 anos, quando passou para a 5a série na Escola Estadual Vital Brasil. Lá, conheceu um menino pardo, de cabelos crespos, que sabia fazer cálculos ainda melhor do que ele e que também tinha intimidade com livros e teses. Dirceu Manuel de Andrade era calado como Giovanni, mas muito menos sisudo. Sorria com facilidade, era muito atencioso e parecia ter o apreço dos professores.
A experiência escolar de Dirceu era parecida com a de Giovanni: bagunça e dúvidas despropositadas o levaram a ser classificado como aluno-problema. Nos primeiros anos, como era sempre o primeiro a responder às perguntas dos professores, ganhou fama de sabe-tudo e exibido. Pela pressão dos colegas, acabou também descobrindo o dom da invisibilidade. Enquanto Giovanni refugiava-se na biblioteca, Dirceu passava o tempo fora da escola junto à mãe, no quarto e cozinha em que moravam eles, o pai e o irmão quatro anos mais novo.
Quando um menino invisível enxergou o outro, formou-se umaamizade sólida. Giovanni, que desde os 6 anos montava rádios e estudava eletricidade, se encantou com a rapidez de Dirceu em compreender os conceitos e avançar nos cálculos relacionados a eles. No dia em que a professora ensinara equações do primeiro grau, na 5a série, Dirceu mostrou a Giovanni como fazer equações de segundo grau e sua relação com as curvas parabólicas. Em seguida, ele mostrou como fazer cálculos infinitesimais simples, como derivação e integração. Passavam o recreio na escadaria da quadra, longe da confusão, divagando sobre raciocínios matemáticos, física, ciências e o que mais lhes interessasse sem chamar a atenção de ninguém. Foram quatro anos em que Giovanni e Dirceu podiam, entre eles, ser eles mesmos.
Capítulo 2: De como os garotos chegaram à adolescência e foram ganhar a vida
O término do ginásio (ensino fundamental) foi marcado por mudanças drásticas na vida dos dois amigos. Não foi apenas o fim do convívio entre garotos antes solitários. Foi também a antecipação da entrada na vida adulta.
Dirceu ainda estava com 14 anos quando sua mãe, Vicentina,morreu aos 50 anos. A pressão alta a levou para o hospital. O coração não a deixou sair. A partir de então, Dirceu passou a trabalhar em subempregos na cidade, enquanto cursava o ensino técnico em contabilidade. Era querido por todos. Aos 16 anos, quando conseguiu seu primeiro estágio no escritório de contabilidade, perdeu o pai, Manuel, então com 76 anos. “Ele tremia muito, não estava bem há tempos”, conta Messias Andrade, de 66 anos, meio-irmão de Dirceu. “Sofreu um tombo na rua, foi internado e não voltou.” O pai tivera 14 filhos do primeiro casamento. Hoje, somente cinco estão vivos. Três deles moram em Campanha.
Na casa, sobraram, então, Dirceu e seu irmão menor, Dircilei. As contas de luz e água e a conta do mercado eram pagas com a pensãode um salário mínimo do pai e o auxílio-alimentação do estágio de Dirceu. Aos 18 anos, Dirceu trocou os números do escritório de contabilidade pela linha de produção da fábrica de ferramentas Moretzsohn, a maior empresa da região. “Era irrecusável”, diz Euclides Andrade, de 55 anos, outro meio-irmão de Dirceu. “Tinha convênio, cesta básica, muitos benefícios. Ele foi direto para a linha de produção”, diz ele.
Enquanto Dirceu agarrava as oportunidades que apareciam em Campanha, Giovanni decidiu sair da cidade e cursar o ensino técnico em eletrônica em Varginha, cidade vizinha a Campanha. Giovanni era um perito radioamador e mexia com desenvoltura com eletrônica graças aos livros de engenharia elétrica que fizeram parte de sua infância. Apresentou o projeto de um rádio que desenhara e conseguiu uma bolsa de estudos. Em poucos meses, Giovanni se tornara coordenador informal do curso. Não tinha diploma para isso, mas tinha o conhecimento. A escola lhe deu uma sala e permitia que ele fizesse as provas sem ter de comparecer às aulas. A partir daí, não precisou mais contar com a ajuda financeira dos pais.
Foi nessa escola que Giovanni foi descoberto, oficialmente, comosuperdotado, por uma empresa internacional, a OAK International Academies. A empresa, que tem entre seus donos a Igreja Católica, mantém uma rede de olheiros em busca de talentos em vários lugares do mundo. Durante toda a vida de Giovanni em Campanha, ninguém fora capaz de cravar que ele era superdotado. Uma conversa e uma olhada nos trabalhos dele bastaram para uma instituição internacional fisgar o garoto do sul de Minas Gerais. A OAK o contratou como programador. O ano era 1997 e Giovanni nunca tinha mexido num computador. A empresa entendeu que ele não demoraria a se familiarizar. Foi o que ocorreu. Giovanni passou sete anos na OAK e, nesse período, morou em seis países: Chile, Itália, Espanha, Venezuela, Colômbia e Argentina. Cuidava da implantação de sistemas nas redes de ensino do grupo. No meio dessa peregrinação, em 2000, houve um intervalo inusitado. Giovanni recebeu um convite para virar seminarista no Vaticano. A proximidade que a empresa tinha com a Igreja Católica fez com que Giovanni ficasse conhecido entre os olheiros do papa. “Nunca tinha pensado em ser padre, mas achei que essa seria uma oportunidade de exploração filosófica”, diz Giovanni.
No Vaticano, quando não estava fazendo suas orações – chegava a ficar quatro horas rezando sem parar –, Giovanni trabalhava como tradutor junto aos bispos e ao próprio papa. Ele se tornou fluente em sete idiomas, como autodidata. A primeira língua estrangeira que aprendeu foi o inglês. Aos 7 anos, com a ajuda de um dicionário, passou a traduzir palavra por palavra de um livro de engenharia americano da biblioteca. Com o rádio que construíra ao 6 anos, sintonizava a BBC e treinava a pronúncia. “Era muito estranho ouvir aquele menino falando em outra língua no quarto”, diz Batista, pai de Giovanni. “Quando era inglês ainda vá lá, mas, quando foi ficando mais velho, falava em voz alta algumas línguas que eu não sabia quais eram. Não sei até hoje, para falar a verdade”, diz ele, e ri. Giovanni é fluente, com as devidas certificações, em latim, grego antigo, francês, italiano, espanhol e inglês. Sua carreira como tradutor (e futuro padre) no Vaticano durou apenas um ano. “Não levo jeito”, diz Giovanni, que voltou a rodar o mundo trabalhando para a OAK.
Desse período, restaram fotos junto ao então bispo Joseph Ratzinger,que viria a ser o papa Bento XVI, e ao papa João Paulo II. Uma foto assinada pelo papa João Paulo II está emoldurada na sala de seus pais em Campanha. Passaram-se sete anos desde que Giovanni saíra de Varginha para fazer o treinamento da OAK em São Paulo, antes de começar a viajar pelo mundo. Um dia, decidiu parar. A essa altura, Giovanni era diretor de sistemas para a América do Sul da empresa.
“Estava na hora de aprender coisas novas”, diz Giovanni. “Queria trabalhar com educação.” Ao chegar a São Paulo, ligou para o pai, contou que largaria tudo e voltaria a estudar. Pediu que o pai fosse buscá-lo. “Achei aquilo tudo uma maluquice. Era um emprego muito bom!”, diz o pai. Ao passar pela Marginal Pinheiros, a bordo do Gol branco do pai, Giovanni apontou para os muros da Cidade Universitária. “Pai, vou estudar aqui. E vou entrar em primeiro lugar”, disse Giovanni, então com 25 anos. “Menina, e não é que ele entrou em primeiro lugar? Um teste tão difícil, deu até no jornal”, diz o senhor Batista. “Olha, naquela hora eu pensei: esse menino é mais inteligente que o normal.”  Só naquele momento? “Ah, minha filha, a gente não entende dessas coisas.”
Como contou o pai de Giovanni, a entrada do filho na USP foi notícia de jornal. Não só por ele ter passado em primeiro lugar no vestibular de 2004, mas principalmente porque ele passara em primeiro lugar e escolhera pedagogia como sua primeira opção. Como alguém com pontuação para os cursos mais concorridos poderia optar por pedagogia num país em que a carreira de professor é tãodesvalorizada?, perguntavam os jornais na época.  
Ainda no 1o ano na Faculdade de Educação, ele se ofereceu para trabalhar em pesquisa com uma professora da graduação. Já no 1o ano, criou a primeira biblioteca digital em braile do país. Então teve sua primeira surpresa: o preconceito com o qual foi tratado pelos professores da faculdade quando seu trabalho começou a chamar a atenção. Giovanni queria se aprofundar na área de pesquisa em educação inclusiva. Pediu, então, para ser avaliado para cumprir os créditos da graduação em menos tempo e, assim, seguir comopesquisador. Ouviu de muitos professores que ninguém era melhor que ninguém. Muitos se recusaram a dar aula para Giovanni. O caso de discriminação dentro da Faculdade de Educação virou um processo que teve de ser conduzido pela reitoria para que Giovanni pudesse se formar.
Giovanni no campus da USP.Como pesquisador milita pelos superdotados (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
A segunda surpresa que Giovanni teve dentro da Faculdade de Educação foi a ausência de qualquer tema ligado aos superdotados. Na mais importante universidade do país, o tema dos superdotados era absolutamente ignorado. Como pedir a professores que reconheçam e saibam como lidar com crianças superdotadas se em nenhum momento elas são preparadas para isso?
Capítulo 3: De quando Giovanni voltou para Campanha e Dirceu finalmente saiu da cidade
Enquanto isso, na cidade de Campanha, a vida de Dirceu se arrastava em dias, meses e anos sempre iguais. Assim como no tempo da escola, Dirceu era querido por todos. As ideias e os raciocínios matemáticos eram expressados na hora do café, em forma de brincadeira, e no trabalho quando tinha oportunidade.“Dirceu sabia a diferença das medidas em milímetro e polegada de cada máquina e produto. Sabia precisamente a regulagem da máquina, a execução segura e a conferência do produto”, diz Nei Benjamin, coordenador administrativo que trabalhou na implantação da certificação ISO na Moretzsohn.“Dirceu fazia cálculos de cabeça que eu e os auditores tínhamos de pegar nossas anotações para conferir. Ele era conhecido até entre os auditores de Belo Horizonte.”
Um acidente grave numa das linhas de montagem quebrou a rotina da fábrica. Dirceu teve o corpo queimado, nos braços e da cintura para baixo, com um ácido usado num dos processos. Foi nessa ocasião que os colegas da empresa e seu irmão descobriram apenúria em que Dirceu vivia. “O pessoal da Moretzsohn teve de fazer a instalação da eletricidade e arrumar a cama e a cozinha para que Dirceu pudesse sair do hospital e se recuperar em casa”, diz o meio-irmão Euclides Andrade. Foram meses de recuperação em casa. Dirceu começou a beber diariamente. O funcionário perfeito nunca voltou para a fábrica. Dirceu passou a faltar ao trabalho. Por vezes, ia trabalhar sem ter tomado banho e com as roupas surradas que usava em casa. Nos finais de semana, começou a passar muito tempo na rua. Não raro, pernoitava na praça.
Em pouco tempo, foi despedido. Com o dinheiro que a empresa lhe pagou por mais de dez anos de contrato e a indenização pelo acidente, Dirceu passou semanas pagando bebida e comida nos bares da cidade para os moradores de rua, que passaram a ser seus companheiros mais constantes. O irmão mais velho, Messias, o internou e tentou tirá-lo da rua, mas não conseguiu. Os irmãos contam que o alertavam sobre os riscos que corria, e ele dizia que não se importava. No dia 22 de junho de 2014, Dirceu foi preso porhomicídio qualificado. Um dos companheiros de bar de Dirceu foi encontrado morto no terreno baldio ao lado da Escola Vital Brasil. Testemunhas relataram que ele fora visto com Dirceu e um outro parceiro de bar. Os dois foram presos.
Penitenciária  de Três Corações.Lá Dirceu aguarda o julgamento por homicídio qualificado (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
No processo, consta que Dirceu estava bêbado em sua casa na hora em que a polícia entrou fazendo perguntas sobre a vítima – e que eleconfessou imediatamente o crime. O promotor público que cuida do caso recebeu uma carta de Dirceu no fim do ano passado. Nela, ele afirma que não matou o colega. Diz que estava muito bêbado e confuso quando foi interrogado. Dirceu pede também para que a perícia cheque as digitais no pedaço de madeira encontrado ao lado do corpo, que segundo a perícia foi usado para matar a vítima. “Não temos esse tipo de recurso aqui”, diz o promotor Laércio Fusco Nogueira. “Estamos tentando aliviar a pena, reforçando o fato de que ele não estava em seu juízo perfeito.”
Em Campanha não há cadeia. Dirceu está na penitenciária da cidade de Três Corações, a 37 quilômetros de sua cidade natal. Lá, aguarda julgamento, no qual ele poderá ser condenado a pena de até30 anos de prisão. Dirceu não quis falar com a reportagem. Pelo promotor, mandou um grande abraço para Giovanni. Disse que esse negócio de superdotação e infância ficou para trás e não importa mais. A casa de dois cômodos em que morava está sem duas paredes. O irmão Euclides diz que aquelas duas paredes eram cheias de cálculos que Dirceu fizera enquanto estava em repouso, em casa. Depois, bêbado, as destruiu.
A experiência com a Faculdade de Educação foi decisiva para queGiovanni resolvesse militar pelos altos habilidosos, nome técnico dado aos superdotados. Na USP, como pesquisador de políticas públicas, passou a estudar as ações que poderiam ter impacto para um maior número de famílias de superdotados. Foi um dos autores da lei  para garantir atendimento às necessidades dos altos habilidosos, com enriquecimento curricular, em toda a rede municipal de São Paulo, aprovada em 2013. Até então, não havia lei específica na cidade. Fundou o Instituto Vérsila para dar treinamento a professores e criou a maior biblioteca digital da América Latina, Vérsila, com acervos de pesquisas científicas de todo o mundo.
Em sua cidade natal, Giovanni (que agora assina o sobrenome da avó, Eldasi) recorreu ao corpo a corpo. Contatou diretores de escola, professores, a Secretaria de Educação e a comunidade para falar da superdotação. O destino do amigo teve alguma relação com isso? “Dirceu não estaria onde está se o país soubesse valorizar o superdotado sem preconceito”, diz ele. “As crianças continuam sendo punidas por ser inteligentes. Além de ser uma burrice, isso também é crime.”

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Justiça determina quebra de sigilo de Capez e de dois ex-assessores de SP


Presidente da Alesp diz que já entregou documentos ao Ministério Público.
Luiz Roberto dos Santos e Fernando Padula são citados em caso da merenda.

Do G1 São Paulo
A Justiça determinou a quebra de sigilo bancário e fiscal do presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo, deputado Fernando Capez, e de dois ex-assessores do governo de Geraldo Alckmin - Luiz Roberto dos Santos, o Moita, ex-chefe de gabinete da Casa Civil, e Fernando Padula, ex-chefe de gabinete da secretaria da Educação, segundo o SPTV. A decisão foi do desembargador Sérgio Rui Fonseca, do Tribunal de Justiça.
Os três são citados na operação Alba Branca, que investiga um possível esquema de fraude na merenda escolar no estado. O desembargador pediu também a quebra de sigilo de outras nove pessoas que estariam envolvidas.

Fernando Capez disse que todos os documentos que foram pedidos pelo Ministério Público foram entregues na segunda-feira (15) à Justiça. Capez informou ainda, pela assessoria de imprensa, que entregou as cinco últimas declarações do imposto de renda no dia 1º de fevereiro e os extratos bancários de 2014 e 2015 no dia 12. Capez disse também que a investigação sobre a máfia da merenda foi pedida por ele e que reiterou o pedido para ser ouvido com urgência.
Fernando Padula disse que ainda não foi notificado e que não existe nenhuma acusação no nome dele.
O advogado de Luiz Roberto dos Santos, o Moita, disse que já havia colocado à disposição todos o sigilos bancários, telefônicos e fiscais, quando foi ouvido na corregedoria da administração.Ministério Público de São Paulo diz acreditar que propinas ajudaram a quebrar a Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar (Coaf). Baseada em Bebedouro, no interior, a cooperativa foi usada para forjar contratos com órgãos públicos e adulterar os preços dos alimentos.
Nesta terça-feira, o governador Geraldo Alckmin afirmou, em evento em Nazaré Paulista, que quer uma "investigação séria e profunda com quem tiver qualquer atitude errada, punição exemplar independente de partido político. É o que a sociedade quer".
A fraude veio à tona durante a “Operação Alba Branca” dia 19 de janeiro, quando seis pessoas, entre funcionários e dirigentes da Coaf, foram presas em Bebedouro investigadas por envolvimento na fraude.
“Quebrou obviamente porque eles tinham muitos compromissos, muitas comissões, muita propina a pagar”, disse o promotor Leonardo Romanelli. Para ele, a maioria dos R$ 4 milhões que a cooperativa diz ter de dívida é fruto de propina.
A Coaf surgiu em um assentamento em Bebedouro, no interior do estado. O agricultor José Aparecido Félix, conhecido como Seu Zezinho, tem uma plantação de legumes lá. Nos últimos cinco anos, ele foi um dos pequenos agricultores que forneceram alimentos para a merenda escolar de 22 prefeituras e para o governo do estado, por meio da cooperativa. Sem saber, ele se tornou vítima do esquema de fraudes que vem sendo investigado pela Polícia Civil e pelo MP.
Uma nota fiscal diz que ele vendeu R$ 4 mil em laranjas para a cooperativa. “Eu nunca plantei laranja, né? Aqui no meu sítio você pode ver. Nunca teve laranja”, disse Zezinho. “Como que uma nota dessa veio como laranja? Alguma coisa tem de errado aí, né?”, acrescentou. “Acho que nós somos laranja, né?”
O agricultor descobriu que as notas fiscais dele estavam sendo falsificadas. Como muitos outros agricultores, ele deixava o bloco de notas na cooperativa. Ele também não reconhece outra nota, esta no valor de R$ 15 mil em abóboras. “Está cara demais, uai. Por que será? Tem ouro nessa abóbora?”
Ex-diretores da cooperativa confirmaram ao MP que os nomes dos agricultores eram usados para desviar recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. O fundo exige que pelo menos 30% dos produtos comprados para a merenda tenham como origem a agricultura familiar e sejam adquiridos, prioritariamente, de assentamentos de reforma agrária.
O Ministério Público e a Polícia Civil dizem que a maior parte da laranja vendida pela cooperativa de bebedouro para a merenda escolar não saía das plantações dos pequenos agricultores, como determina a lei. A fruta era comprada em grandes mercados como a Ceagesp de Ribeirão Preto. A cooperativa pagava o preço do dia e depois entregava para as prefeituras por um valor maior, superfaturado.
O ex-presidente da cooperativa, Cassio Chebabi, disse à Justiça que, para conseguir contratos, pagava propina a funcionários públicos e a assessores de políticos. O dr. Ralph Torni, advogado de Chebabi, disse que o seu cliente já havia colocado o sigilo bancário e fiscal à disposição dos investigadores e que está providenciando junto aos bancos toda a documentação necessária. Ele disse também que tem o intuito de coloborar com a investigação.
O ex-chefe de gabinete da Casa Civil do governo Geraldo Alckmin (PSDB), Luiz Roberto dos Santos, conhecido como Moita, é investigado porque aparece em ligações telefônicas orientando a cooperativa a aumentar o valor de um contrato com a Secretaria Estadual da Educação.
Reunião do PSDB
Cinco membros do conselho de ética do diretório estadual do PSDB se reuniram na tarde desta segunda-feira (15) para discutir a instauração de um processo disciplinar interno destinado a apurar a conduta de Luiz Roberto dos Santos, o Moita. O advogado de Santos, Ricardo Guinalz, disse ao SPTV que vai aguardar a decisão do partido.
"Vamos procurar investigar", disse o presidente da comissão de ética do PSDB, Dilador Borges. "Ele tem o direito do contraditório, está aberto no nosso próprio estatuto. Tem prazo para ele dar a justificativa dele. Todo mundo tem direito de defesa e ele vai ter o direito de defesa dele. Comprovando que houve uma irregularidade ele sofrerá uma penalidade."